sexta-feira, 27 de outubro de 2017

UMA PENÚLTIMA HOMENAGEM A BETE

Não esperávamos a notícia da morte de Elisabete, o que nos comoveu muito. Acostumados a vê-la enfrentar o câncer, em situações algumas vezes tão drásticas quanto, esperávamos simplesmente a sua volta de mais um internamento. Foram dez anos de uma luta que nos marcou, mas na noite de 19 de outubro deste ano de 2017 recebemos a notícia. Doeu muito.

A presença de Bete nos cultos da Igreja Batista do Pinheiro trazia um toque litúrgico especial. Estava sempre ali, quando o corpo deixava, com um sorriso meio enigmático, como quem sabe segredos que gostaríamos de perguntar. Na alma e no corpo levava essas misturas importantes para a nossa humanidade de cada dia, feminista, cristã, atenta a grandes e pequenas questões, intensa capacidade de crer, de lutar, de amar e de sofrer.

No Boquim da minha infância, no estado de Sergipe, havia um busto na praça, homenagem ao poeta da cidade, Hermes Fontes, com os seguintes dizeres, os quais parecem de encomenda para essa ocasião:

“Somente os que têm amado e têm sofrido
E quanto mais sofrido mais amado
Podem mostrar no coração ferido
O seu altar o seu apostolado.”

Amar cada vez mais a cada maior sofrimento parece ter sido missão e apostolado para Elisabete. O sofrimento é parte da vida e carrega a ambiguidade de ser lugar de destruição ou de aprendizado. O pastor Martin Luther King Jr, nos anos sessenta, conclamava os negros americanos a transformarem a sua “imensa capacidade de sofrer” em instrumento de luta por direitos. Bete lutou, além dos seus limites, pela igualdade de direitos, dentro da categoria de gênero e além, conversando, escrevendo, vivendo e especialmente estudando a Bíblia.

Na cerimônia do sepultamento, à qual não pude comparecer, Bete estava vestida com a camisa da Flor de Manacá. Lembramos o quanto ela falava sobre esse ministério da Igreja do Pinheiro, o quanto uma hermenêutica bíblica, a partir de um olhar feminista, havia sido libertadora na sua vida. A palavra “gênero” tão difamada hoje em dia, era seu campo de luta e o acolhimento a proscritos e proscritas da sociedade era jeito cotidiano de ser.

Pois é, Bete é flor de Manacá, símbolo de beleza e resistência, talvez flor sempre viva que o câncer não conseguiu impedir de distribuir profusão de sementes, maneira de se multiplicar em outras flores, e a morte, para a nossa esperança cristã é apenas caminho para jardins mais floridos.

Essa é uma penúltima homenagem a Elisabete de Lima Bezerra, diante de sua família, sua igreja, sua pastora Odja, seu pastor Wellington, e todas as suas amadas e amados. Penúltima como tantas que virão, porque na teologia de Dietrich Bonhoeffer, aquele que foi executado pela Alemanha de Hitler, vivemos aqui e agora o penúltimo, o último é a eternidade.


Maceió, 27 de outubro de 2017.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

UM CRISTO À BEIRA DE UM INFARTO

diariodorio.com
Marcos Monteiro

Na noite do dia 02 sofri um infarto e fui submetido a cateterismo e angioplastia. Mudei de indicador estatístico e agora faço parte dos trezentos mil brasileiros que anualmente experimentam esse violento ataque cardíaco; setenta mil morrem e eu sobrevivi. As recomendações de repouso e de evitar esforço e estresse, a gente vai aprendendo pouco a pouco, porque estresse é essa reação indefinida do corpo a pressões cotidianas que caem sobre nós em camadas. O mundo desaba sobre o nosso coração, mas de modo mais ou menos sutil, como uma espécie de mal estar sem causa nenhuma.

Estamos em um momento adoecedor, desses em que parece, burlando o otimismo romântico e adocicado de Paulo Coelho, que todo o universo conspira para a realização de nossos piores pesadelos. Eduardo Galeano é quem nos lembra novamente, na edição de 2010 de seu clássico “As veias abertas da América Latina”,  da editora Paz e Terra, de que “Os sonhos do mercado mundial são os pesadelos dos países que se submetem aos seus caprichos” (p. 7).  Tempos em que a teoria do caos caminha em mão única e um arroto de Trump na Casa Branca é capaz de devastar o coração da floresta amazônica.

E é exatamente o coração do “gigante adormecido” que me preocupa. Desde a colonização, ele vem resistindo a golpes sucessivos e violentos; o sistema cardiovascular que constitui a sociedade brasileira tem sido sangrado em sua saúde mineral e em seu equilíbrio homeostático, de modo que esse caldeamento de sangues com que foi formada tem sido muito mais danoso para alguns, e o coração do índio e do negro resistiram e resistem ainda a inumeráveis ataques, um grito de esperança contra todo tipo de pressão e opressão.

Desse modo, constatar que o “homem cordial” é cada vez mais um cardiopata é bem natural. As estatísticas nos revelam o que já desconfiávamos: o infarto tem cor, idade, sexo, classe e território. Acomete muito mais a mulheres pretas, pobres, idosas e de periferia. Sou idoso, mas branco, classe média, e moro em uma boa casa de um bairro popular, mas também estou incluído, agora.

Esse texto no meu blog tem o objetivo principal de informar a amigas e amigos que ainda não souberam que estou em convalescença cardíaca e que o carinho e a amizade de tantas e tantos têm sido os meus maiores medicamentos. Claro que junto aqui o hábito adquirido de textualizar a vida e de pensar o cotidiano. Cada idoso com a sua mania. Mas realmente me preocupa a saúde do povo brasileiro, das suas instituições e dos seus símbolos. Assim, quero dirigir o meu cuidado maior para o Cristo Redentor.

Ao abrir os braços para abençoar o Brasil, de cima do morro do Corcovado, o Cristo deixou o seu coração exposto e ele tem sido alvejado cotidianamente. Especialmente, por aqueles que vociferam preconceito e ódio em seu nome. Uma denominada “bancada evangélica” tem fomentado e reverberado uma violência sagrada que atinge os mais vulneráveis da sociedade, exatamente aquelas que representam o Cristo e que são acolhidos de um modo especial no seu coração. Uma nova “Irmandade do Coração de Jesus” tem de ser levantada urgente para evitar o infarto do Cristo Redentor.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

SAUDADE DO SILÊNCIO DOS BONS

Marcos Monteiro

O discurso que autoriza o ódio e legitima o preconceito está sendo repetido, quase como um jogral, por pessoas boas, amigas e amigos de nosso círculo de relações, respeitados por nós em suas atitudes pessoais e em sua afetividade cotidiana, de tal modo que a frase de Martin Luther King Jr, “o que me incomoda não são os gritos dos maus, mas o silêncio dos bons” tornou-se desatualizada.

Os bons estão falando e a sua fala nos aterroriza muito mais do que os gritos dos maus. Previsivelmente, “pessoas de bem” repetem a ideologia das “pessoas de bens”, trocadilho que estabelece ligações entre a semântica e a violência. E ainda mais, a hegemonia branca, cristã, androcêntrica, patriarcal, gera um discurso repetido por gente boa, cuja violência simbólica se traduz cada vez mais em violência física.

A raiva é conhecida como o tipo de emoção acumulativa e vem sendo culturalmente alimentada em muitas instâncias. A família e a igreja, atualmente, têm sido os foles que sopram o tempo todo e alastram o incêndio que atinge a nossa sociedade atual. As falas e vídeos preconceituosos derivam ciclicamente contra os partidos de esquerda para os homo e transexuais e para as religiões de matriz africana, produzindo turbilhões de violência cada vez maiores.

Em uma semana, um conjunto de falas preconceituosas atingindo somente políticos e partidos de esquerda. Na outra, uma indignação desproporcional sobre uma amostra “queer” de arte. E agora, o ataque a cultos afros por traficantes, em nome do evangelho, muitos criados em ambientes cristãos que consideram a religião negra demoníaca.

Gosto muito de um vídeo do pastor Henrique Vieira que afirma que esses discursos,  pronunciamentos e atitudes, não definem a totalidade do campo evangélico. Reconhecemos isso com muita alegria. Entretanto, admitimos com pesar que a imensa maioria da igreja evangélica, incluindo as tradicionais (de certo modo é mais cômodo lançar a culpa sobre os neo-pentecostais), manuseia uma hermenêutica e uma teologia preconceituosas. A bancada evangélica não representa a totalidade, mas temo que represente proporcionalmente a esmagadora maioria do pensamento evangélico.

Portanto, tenho saudade do silêncio dos bons, mas acredito na insatisfação juvenil e na combatividade insistente da militância. Esses não se calam nunca e precisam falar mais e organizar o embate, porque estamos praticamente em guerra declarada. Nesses momentos, as armas da justiça, da paz e do amor, precisam enfrentar a maldade embutida em nossas instituições.

Nós que sofremos as dores da violência da opressão, também precisamos, como nos lembra bem Paulo Freire, da raiva para combatê-la. A violência estrutural, pública e privada, precisa ser enfrentada com apaixonada indignação. Desse modo, precisamos de uma militância radical que combata não as causas, mas o combustível discursivo e imagético que alimenta o incêndio cada vez mais devastador. Tenho saudade do silêncio dos bons e dos corajosos discursos do pastor e militante evangélico Martin Luther King Jr.

Maceió, 22 de setembro de 2017