quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

CINQUENTA CORES DO ARCO-ÍRIS



Cleide Amada

1. No dia do seu aniversário não sabia como fazer a homenagem que você merece. Então já que você completa cinquenta anos, fiz um inventário das emoções do nosso cotidiano. Uma para cada ano de sua vida.
São cinquenta tons, não de cinza, mas com todas as cores do arco-íris, como a diversidade que defendemos e celebramos.
2. Estabeleci uma estrutura concêntrica para que o AMOR fosse o centro de uma ordem descendente e ascendente.
3. Considero cada emoção bem positiva, mas para compor as cinquenta inseri cinco negativas para lembrar que o amor comporta desafios.
4. Algumas palavras tive que inventar senão não diriam bem o que pretendem.

AQUI VAI O COMPLEXO DE EMOÇÕES DE e Z-A e A-Z.

Zelo, xumbregamento, velocidade, unidade, totalidade, tristeza, suavidade, realização, quero-mais, paixão, óbolo, novidade, maravilhamento, ludicidade, justiça, intimidade, humildade, graça, fé, êxtase, desvelamento, dor, coragem, benevolência, AMOR, beatitude, companheirismo, dedicação, exuberância, fidelidade, glória, hilaridade, inteireza, impaciência, juvenilidade, leveza, mistério, nobreza, oração, pânico, pertencimento, querência, respeito, senilidade, surpresa, tenacidade, ubiquidade, verdade, xotemania, zen-ludismo.

Tudo isso para dizer que te amo a cada dia um pouco mais e que a nossa vida, em meio a um cotidiano desafiador, pode ser tudo menos monótona. E mais do que isso que você é a maior responsável pelo melhor de nossa relação e a sua vida merece comemorações e comemorações até que complete um século. Então será a hora de começar outro.

Um feliz aniversário com todo amor.

Marcos Monteiro

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

UMA PENÚLTIMA HOMENAGEM A BETE

Não esperávamos a notícia da morte de Elisabete, o que nos comoveu muito. Acostumados a vê-la enfrentar o câncer, em situações algumas vezes tão drásticas quanto, esperávamos simplesmente a sua volta de mais um internamento. Foram dez anos de uma luta que nos marcou, mas na noite de 19 de outubro deste ano de 2017 recebemos a notícia. Doeu muito.

A presença de Bete nos cultos da Igreja Batista do Pinheiro trazia um toque litúrgico especial. Estava sempre ali, quando o corpo deixava, com um sorriso meio enigmático, como quem sabe segredos que gostaríamos de perguntar. Na alma e no corpo levava essas misturas importantes para a nossa humanidade de cada dia, feminista, cristã, atenta a grandes e pequenas questões, intensa capacidade de crer, de lutar, de amar e de sofrer.

No Boquim da minha infância, no estado de Sergipe, havia um busto na praça, homenagem ao poeta da cidade, Hermes Fontes, com os seguintes dizeres, os quais parecem de encomenda para essa ocasião:

“Somente os que têm amado e têm sofrido
E quanto mais sofrido mais amado
Podem mostrar no coração ferido
O seu altar o seu apostolado.”

Amar cada vez mais a cada maior sofrimento parece ter sido missão e apostolado para Elisabete. O sofrimento é parte da vida e carrega a ambiguidade de ser lugar de destruição ou de aprendizado. O pastor Martin Luther King Jr, nos anos sessenta, conclamava os negros americanos a transformarem a sua “imensa capacidade de sofrer” em instrumento de luta por direitos. Bete lutou, além dos seus limites, pela igualdade de direitos, dentro da categoria de gênero e além, conversando, escrevendo, vivendo e especialmente estudando a Bíblia.

Na cerimônia do sepultamento, à qual não pude comparecer, Bete estava vestida com a camisa da Flor de Manacá. Lembramos o quanto ela falava sobre esse ministério da Igreja do Pinheiro, o quanto uma hermenêutica bíblica, a partir de um olhar feminista, havia sido libertadora na sua vida. A palavra “gênero” tão difamada hoje em dia, era seu campo de luta e o acolhimento a proscritos e proscritas da sociedade era jeito cotidiano de ser.

Pois é, Bete é flor de Manacá, símbolo de beleza e resistência, talvez flor sempre viva que o câncer não conseguiu impedir de distribuir profusão de sementes, maneira de se multiplicar em outras flores, e a morte, para a nossa esperança cristã é apenas caminho para jardins mais floridos.

Essa é uma penúltima homenagem a Elisabete de Lima Bezerra, diante de sua família, sua igreja, sua pastora Odja, seu pastor Wellington, e todas as suas amadas e amados. Penúltima como tantas que virão, porque na teologia de Dietrich Bonhoeffer, aquele que foi executado pela Alemanha de Hitler, vivemos aqui e agora o penúltimo, o último é a eternidade.


Maceió, 27 de outubro de 2017.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

UM CRISTO À BEIRA DE UM INFARTO

diariodorio.com
Marcos Monteiro

Na noite do dia 02 sofri um infarto e fui submetido a cateterismo e angioplastia. Mudei de indicador estatístico e agora faço parte dos trezentos mil brasileiros que anualmente experimentam esse violento ataque cardíaco; setenta mil morrem e eu sobrevivi. As recomendações de repouso e de evitar esforço e estresse, a gente vai aprendendo pouco a pouco, porque estresse é essa reação indefinida do corpo a pressões cotidianas que caem sobre nós em camadas. O mundo desaba sobre o nosso coração, mas de modo mais ou menos sutil, como uma espécie de mal estar sem causa nenhuma.

Estamos em um momento adoecedor, desses em que parece, burlando o otimismo romântico e adocicado de Paulo Coelho, que todo o universo conspira para a realização de nossos piores pesadelos. Eduardo Galeano é quem nos lembra novamente, na edição de 2010 de seu clássico “As veias abertas da América Latina”,  da editora Paz e Terra, de que “Os sonhos do mercado mundial são os pesadelos dos países que se submetem aos seus caprichos” (p. 7).  Tempos em que a teoria do caos caminha em mão única e um arroto de Trump na Casa Branca é capaz de devastar o coração da floresta amazônica.

E é exatamente o coração do “gigante adormecido” que me preocupa. Desde a colonização, ele vem resistindo a golpes sucessivos e violentos; o sistema cardiovascular que constitui a sociedade brasileira tem sido sangrado em sua saúde mineral e em seu equilíbrio homeostático, de modo que esse caldeamento de sangues com que foi formada tem sido muito mais danoso para alguns, e o coração do índio e do negro resistiram e resistem ainda a inumeráveis ataques, um grito de esperança contra todo tipo de pressão e opressão.

Desse modo, constatar que o “homem cordial” é cada vez mais um cardiopata é bem natural. As estatísticas nos revelam o que já desconfiávamos: o infarto tem cor, idade, sexo, classe e território. Acomete muito mais a mulheres pretas, pobres, idosas e de periferia. Sou idoso, mas branco, classe média, e moro em uma boa casa de um bairro popular, mas também estou incluído, agora.

Esse texto no meu blog tem o objetivo principal de informar a amigas e amigos que ainda não souberam que estou em convalescença cardíaca e que o carinho e a amizade de tantas e tantos têm sido os meus maiores medicamentos. Claro que junto aqui o hábito adquirido de textualizar a vida e de pensar o cotidiano. Cada idoso com a sua mania. Mas realmente me preocupa a saúde do povo brasileiro, das suas instituições e dos seus símbolos. Assim, quero dirigir o meu cuidado maior para o Cristo Redentor.

Ao abrir os braços para abençoar o Brasil, de cima do morro do Corcovado, o Cristo deixou o seu coração exposto e ele tem sido alvejado cotidianamente. Especialmente, por aqueles que vociferam preconceito e ódio em seu nome. Uma denominada “bancada evangélica” tem fomentado e reverberado uma violência sagrada que atinge os mais vulneráveis da sociedade, exatamente aquelas que representam o Cristo e que são acolhidos de um modo especial no seu coração. Uma nova “Irmandade do Coração de Jesus” tem de ser levantada urgente para evitar o infarto do Cristo Redentor.