terça-feira, 23 de janeiro de 2018

OS JULGAMENTOS DE LULA

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Marcos Monteiro


Amanhã Lula estará sendo julgado na cidade de Porto Alegre, em segunda instância, julgamento cuja natureza política implica automaticamente em vários julgamentos. O próprio judiciário estará sendo julgado (na mesma medida em que o julgará), pela comunidade jurídica nacional e internacional e especialmente pelo olhar do povo. Mas Lula reúne simbolicamente toda a cultura e história de um povo, e o seu julgamento incluirá a sua trajetória existencial, migrações no tempo e no espaço, pertencentes especificamente ao tempo e ao espaço brasileiros.

Migrante nordestino e migrante político, Lula pertence à categoria de povo brasileiro, de análise complexa, mas que se estrutura como o resultado atual de um sistema colonial escravista que acompanha a própria história do capitalismo. O negro africano pode ser considerado a primeira mercadoria de circulação em massa produtora de uma mais-valia desproporcional, e as relações escravagistas no Brasil ainda imprimem marcas fortes na consciência econômica, social e cultural de nossa vida. Essa nossa consciência histórico-cultural estará refletida também no julgamento de amanhã.

No processo de urbanização perverso, acelerado pelo projeto de industrialização a que fomos submetidos, Lula representa o migrante que deu certo, o menino pobre de periferia que ascendeu socialmente. Mas, se o seu sucesso reforça, por um lado, o mito do individualismo, por outro ameaça esse mesmo mito por não admitir que isso possa acontecer em uma trajetória de confrontação crítica e não de submissão automática. Outros brasileiros, ricos políticos, ricos empresários, pagodeiros, futebolistas, comunicadores, podem reivindicar para si o sucesso da ascensão social, mas sempre se adequando às normas, nunca combatendo veementemente as estruturas existentes. Mas alguém que migrou de classe, percorrendo e administrando em sua história lutas populares, será sempre considerado uma espécie de arrivista. No julgamento de Lula, amanhã, estarão sendo julgados os processos de ascensão social, mas muito mais do que isso, de um modo subjacente, um modelo de sociedade que necessita de ascensão.

Porque estarão sendo julgados o socialismo e o comunismo de Lula, e o medo é o de sua imensa popularidade. O que surpreende nesse pavor de um modelo de sociedade baseado numa distribuição de poder mais horizontal é que a trajetória política de Lula mostra uma migração de um ideário de esquerda, cada vez mais em direção ao centro, e muito próximo da direita. Lula é cada vez menos socialista, mas ao administrar o capitalismo neoliberal, com uma força de centro, e algum vestígio de anseios socialistas, ameaça a estrutura piramidal. Mesmo sendo as grandes migrações de classes econômicas realizadas por seu governo, mantidas dentro da cultura capitalista, consumista, narcisista e individualista, isso causa insegurança nas elites nacionais.

Portanto, Lula, acima de tudo, estará sendo acusado de democracia. Mas democracia é a palavra que mascara uma gestão cada vez mais distanciada do povo, cada vez mais próxima de uma oligarquia de natureza plutocrática. Entretanto, foi exatamente com essa democracia que Lula conseguiu sucesso junto a classes mais populares, estabelecendo uma política de conciliação, em que os maiores sempre levam mais vantagem, naturalmente. A democracia capitalista, a qual privilegia alguns e se submete ao poder dos grandes financiadores, tornou-se modelo universal e a necessária tensão entre os três poderes demonstrou solidez e fragilidades ao longo da história. Essa democracia é a única que temos no Brasil e ainda assim é incipiente e frágil. O modelo é importado, e amanhã estará sendo julgado em sua aplicabilidade por aqui.

Lula, segundo as análises, sairá vitorioso do julgamento, absolvido ou condenado. Absolvido, terá condições de comandar novamente a política e a economia do país, no mesmo intuito de conciliação que o consagrou. Se condenado, será o herói da luta contra os oprimidos, sacrificado no altar dos opressores. Lula, sem dúvida, é o maior herói já produzido pela esquerda nesse país, acima dos movimentos sociais e acima dos partidos. Mas, desse modo, movimentos e partidos que precisam de heróis são a dissonância de nossa esquerda que nunca conseguiu caminhar coletivamente. Então, amanhã, também a nossa esquerda será julgada e, qualquer que seja o resultado, será condenada pela história.

Maceió, 23 de janeiro de 2018

domingo, 24 de dezembro de 2017

Ave Maria! Feliz Natal!

veronicabenesi

Ave Maria e Feliz Natal

Marcos Monteiro

O Natal é o ponto nodal de variadas significações, o lugar de encontro de tradições antigas e novas, a encruzilhada de transeuntes celestes e terrestres e o albergue de pastores e magos peregrinos.

Celebração que surge como festa de proscritos, daqueles que aprendem nos becos da história a inventar o máximo de alegria do mínimo de condições, mas que vai se tornando com o desenrolar da história em festa de opressores, bacanal de esbanjamento que disfarça violência.

Numa pequena vila, um casal pobre de viajantes tem uma pequena criança, tendo como visitantes pastores, trabalhadores desclassificados, e magos, religiosos estrangeiros suspeitos. Jesus nasce em um estábulo e tem como berço um cocho de animais. No encontro entre insignificância e insignificantes, o nascimento da criança torna-se mensagem de nova vida. Os anjos compõem a nova canção para que os pequeninos inventem a nova dança, da paz e da boa vontade entre os homens.

O acontecimento aparentemente banal abala o equilíbrio dos céus e da terra. Os astros e os magos se tornam errantes e o medo chega ao palácio que transforma a alegria do nascimento em lágrimas por crianças assassinadas pelo poder covarde. O crime planejado contra o menino será consumado contra o homem Jesus, mais tarde.

Mas faz bem lembrar que o Natal é a comemoração de um parto. O corpo da jovem camponesa Maria, da desprezada cidade de Nazaré, tornou-se útero de Deus, lugar de gestação da nova humanidade.

No Natal somos convidados e convidadas a participar dessa re-creação. Convidados a sermos úteros em festa de gestação continuada, na alegria e paciência de um parto que mesmo doloroso é esperança e antecipação de um mundo em que a paz e a boa vontade entre as pessoas estão sempre à espreita. Portanto, ave Maria e Feliz Natal.

Recife, 24 de dezembro de 2017



quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

CINQUENTA CORES DO ARCO-ÍRIS



Cleide Amada

1. No dia do seu aniversário não sabia como fazer a homenagem que você merece. Então já que você completa cinquenta anos, fiz um inventário das emoções do nosso cotidiano. Uma para cada ano de sua vida.
São cinquenta tons, não de cinza, mas com todas as cores do arco-íris, como a diversidade que defendemos e celebramos.
2. Estabeleci uma estrutura concêntrica para que o AMOR fosse o centro de uma ordem descendente e ascendente.
3. Considero cada emoção bem positiva, mas para compor as cinquenta inseri cinco negativas para lembrar que o amor comporta desafios.
4. Algumas palavras tive que inventar senão não diriam bem o que pretendem.

AQUI VAI O COMPLEXO DE EMOÇÕES DE  Z-A e A-Z.

Zelo, xumbregamento, velocidade, unidade, totalidade, tristeza, suavidade, realização, quero-mais, paixão, óbolo, novidade, maravilhamento, ludicidade, justiça, intimidade, humildade, graça, fé, êxtase, desvelamento, dor, coragem, benevolência, AMOR, beatitude, companheirismo, dedicação, exuberância, fidelidade, glória, hilaridade, inteireza, impaciência, juvenilidade, leveza, mistério, nobreza, oração, pânico, pertencimento, querência, respeito, senilidade, surpresa, tenacidade, ubiquidade, verdade, xotemania, zen-ludismo.

Tudo isso para dizer que te amo a cada dia um pouco mais e que a nossa vida, em meio a um cotidiano desafiador, pode ser tudo menos monótona. E mais do que isso que você é a maior responsável pelo melhor de nossa relação e a sua vida merece comemorações e comemorações até que complete um século. Então será a hora de começar outro.

Um feliz aniversário com todo amor.

Marcos Monteiro